CONTEMPLAR É UM ATO VIOLENTO

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A morte em três lições

É horrível na primeira vez
Perceber o corpo sonolento, silencioso,
Imerso ainda na fantasia de algum baque.
Os ritmos em que operava
duríssimos, cansados,
calando-se para sempre.

Na segunda vez, devagar se aprende
A escatológica poética do não:
Ausência de vibrações, músculos esquecidos,
Terminações nervosas, não mais.
Mas ainda pergunta-se:
Por quê?

Na terceira, das vezes a última,
A inteligência do corpo olvida a própria inteligência.
A pele olvida a pele.
Nada é mais sensível
E o sono vem, afinal...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

se houvesse um homem na esquina
mãos nas algibeiras, sorriso entrecortado pela
última lembrança última morte última forma
de
desfilar o pranto - as mãos os dedos gelados escondidos.

se houvesse um homem na esquina
de rosto invisível, gestos invisíveis, porém
o desespero movimentando-se também invisível por seu semblante,
aparentemente solto no tempo,
esse homem
talvez sem horas minutos percorrendo seu corpo - mas isso
é ilusão do flâneur, é desejo
do poeta, pois
além da parca metafísica, além da poesia,
pelo homem da esquina
percorrem todos os dias, ásperos e intranquilos.

sábado, 17 de setembro de 2011

"Não nasceu por lado algum
Foi sempre empurrado pelo vento
E foi um arlequim vivo
Mistura adúltera de tudo."

(L'Américaine - Tristan Corbière)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O dia sem metalinguagem

coisa de gente estrangeira
perscrutando a casa
atrás de banalidades;

mãozinhas brancas
forçando o tacho,
minhas fitas,
os panos:

há de foder.

para algumas formas a palavra é miserável

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A Festa da Menina Morta

Fitas azuis. Risos infantilizados atravessados por meu choro. Flores amarelas denunciam o acontecimento. Um rosto branco (branquíssimo) não traz paz. Pesadelos. Toda noite fitas de menina no meu choro tão azul. O mundo espanca, mas as imagens são belas. Até a menina já sem sopro algum é bela. A caixa sob medida (tão clarinha!) que a guarda é bela. E aquele derramamento de flores! Tão carnavalesco, belíssimo. Correm as águas de tantos olhos por cima de pétalas coloridas, alegres alegres. Quando ela acordar ficará feliz com tantos gracejos à sua volta.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

espaço de destruição
 
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